"Sou eu que começo ou é você que começa? [...] Sou eu que começo! [...] E eu começo como? Eu vou falando por ordem cronológica ou o que me vier na cabeça?"
(Mercedes, personagem de Lília Cabral - Divã, 2009)

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Depois do depois.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Eu não consigo te encarar, você percebeu? Não sei explicar, mas sempre quando você está eu me desconforto em te olhar quando você fala. Isso me intriga. Logo eu, que sempre te pedi para me olhar nos olhos, agora não consigo te encarar.

E também senti que nossos corpos se repelem. Nosso cumprimento fica distante, entre um acenar e, no máximo da nossa intimidade, um beijo no rosto. Sem abraços. Um beijinho na bochecha direita. Mal me lembro a última vez que nos abraçamos. E pensar que foi assim que tudo nasceu: eu correndo e você me abraçando. Pura inocência.

E a gente quase não fala. Nos envolvemos na conversa dos outros. O que é engraçado quando se trata da minha pessoa e da sua. Dois falantes.

Eu percebo que você nota quando minhas mãos se entrelaçam em outra. E eu reconheço que alguma coisa acontece comigo quando as suas mãos se entrelaçam em outras. E fico pensando: se houveram vezes em que fiz de propósito...quantas vezes você também não teria feito por pura provocação?

Provalmente essa coisa de não olhar, não falar e não tocar lhe pareça alguma coisa. Será que você percebeu tudo isso? Será por isso que sempre um de nós se retira antes do tempo?


Qualquer dia eu te conto que ainda guardo aquele bilhete na carteira.

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Rotina

quarta-feira, 22 de abril de 2009

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De que você é feito?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sabe qual a diferença? Eu não dou gritinhos! Eu não saltito. Eu até já tentei, mas eu não levo jeito para ser de borracha, sabe?

E reconheço que não ser de borracha me traz alguns infortúnios, ainda mais quando o grupo social que estou inserida é totalmente emborrachado. O problema maior, é que eu não consigo simplesmente me retirar e pronto. Antes de sair eu falo. E não ser de borracha entre tantas, é complicado.

Nesse mundo-de-meu-Deus tem muita gente de borracha!! E me cansa. De verdade me cansa. Me soa tão falso, tão superficial, tão ... borracha!

Acho que sou de vidro: sou transparente e cortante. E eu quebro! Em altas temperaturas me derreto (rs). Vidro custa caro. Objetos de vidro necessitam de mais cuidados.

Mas isso não importa...

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Querer voltar

sábado, 18 de abril de 2009

Thereza um dia descobriu que, se ela quisesse ser amada, teria que começar a amar. Então tentava dia-a-dia demonstrar o seu carinho pelas pessoas que a cercavam. Aprendeu a abraçar, beijar e dizer que gostava. Aprendeu a pedir carinho também, afinal ninguém adivinha quando a gente quer cafuné ou não. Pedir também era uma habilidade. Não se sabe se foi perceptível, mas Thereza mudou muito em relação a proximidades.


Mas agora Thereza perdeu a vontade. Não a vontade de amar, mas a vontade de demonstrar o amor. Thereza perdeu a vontade de querer ser amiga. E o mais dolorido disso tudo e que, querendo ou não, as escolhas vão levá-la cada vez mais para longe.


Ela sabe que para sempre poderá voltar para o seu porto seguro, sua casa. Porém atormenta Thereza, a dúvida se, nessas condições, ela ainda vai querer voltar?


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Sob o negativo - A última bola de papel

quinta-feira, 16 de abril de 2009

[Leia os capítulos anteriores clicando aqui]

Com sua lapiseira amarela, Rodrigo começou a rabiscar traços em seu caderno. Há meses que ele não fazia isso. Desde que ela se foi, para ser mais exato.

E daqueles ingênuos traços, ele desenhou uma frase: Eu te perdoo...


Naquele caderno, cheio de rabiscos e desenhos e traços, Rodrigo deixava o seu punho desenhar mais letras, formar palavras. Depois de muito, destacou a folha do espiral e amassou, feito quem faz bolinhas de papel. Passou as mãos pelo rosto, levantou e deixou o papel no banco ao lado.


Dias depois, durante o café da manhã, passando os olhos pelas principais notícias do jornal, reconhece:

"Eu te perdoo! Te perdoo de verdade, com minha sinceridade, com todo o meu sentimento. Todas as pessoas sofrem, todas as pessoas erram. Foi assim comigo, foi assim com você. Eu te perdoo chorando. Te perdoo tirando de mim todas as mágoas que ainda me faziam de xingar em silêncio. Todas essas gotas, que agora molham meu papel e me denunciam neste ponto de ônibus, são os últimos pedacinhos seus... Dia-a-dia te chorei! Você iria rir se soubesse qual música está trilhando a dança dessas minhas palavras. Sim, é aquela! Está tocando em algum lugar aqui perto. Escuto os últimos acordes: estão anunciando o fim. Da música e daquilo que ainda doía. Talvez você nunca saiba disso mas, Eu te perdoo!"


Nota do editor: Uma bola de papel sem nome publicada para que 'você' nunca fique sem saber.


Rodrigo fechou o jornal, tomou seu café e só. E só.




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Este conto encerra a sessão "Sob o negativo".

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Difícil entender

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Você sempre a observou. Ela observa tudo: você e mais um monte de coisas. Você não entende como ela pode lacrimejar quando vocês conversam sobre amores. Você abre as mãos e conta dedo a dedo e descobre que ela tem tudo que a maioria das pessoas que você conhece gostariam de ter.


Você sabe, e ela também, que sempre faltará alguma coisa. 'Como se fosse algo pelo que buscar' - é o que ela diz.


Mas honestamente você não entende porque os olhos dela ficam tão brilhantes quando vocês falam de amores. E mesmo que você saiba que isto é uma grande vontade dela, você acha exagero.


Primeiro porque amores sempre trazem dores-de-cabeça e depois porque dores-de-cabeça não seriam bem vindas neste momento para ela. Embora você saiba que não és quem decide o que é bom ou não para ela.


E fica nítida a sua confusão quando o que ela fala parece discrepante com o que o rosto dela diz. E quando você olha o jeito que ela sorri e brinca com os cabelos, você fica hipnotizado e acha difícil demais enxergar aquilo que ela vive chamando de vazio.


Quando ela grita e põe a mão na cintura, você se ocupa em passar longe e acha difícil demais identificar aquilo que ela sempre chama de insegurança.


É quase incompreensivel todas as teorias que ela constrói sobre si mesma. Porque o jeito despachado que ela tem, faz você pensar que a vida flui gostosamente, que problemas só existem na sua vida e que você é o único que não aprendeu a ser tão contente.


Sabe que, talvez flua mesmo. Talvez você tenha razão em dizer que não existe vazio algum ou certa insegurança. Talvez você esteja certo em chamar aquelas lágrimas de drama. Ou talvez não.


E quando você a vê fazendo perguntas inocentes, fica dificil de encontrar aquilo que o mundo diz ser malícia e orgulho. Convenhamos, o mundo diz coisas demais sobre as pessoas que você, e ela - e eu também - muitas vezes, não entendem.


Porque, se for verdade que são as pequenas atitudes que desenham a personalidade de um homem, a dela é uma obra abstrata. São detalhes demais. Ela sempre gostou de detalhes.


E quando você sente o acariciar daquelas mãos ou a doçura de caber perfeitamente em seu abraço, fica terrívelmente dificil entender aquilo que ela disse um dia sobre sua dificuldade em se relacionar. Então você pensa: muitas pessoas no mundo podem ter dificuldades em se relacionar, menos ela.


Desse jeito, quando ela ameaça chorar nos seus ombros, ou quando ela lhe pede com os olhos e com os gestos o seu acolhimento, você simplesmente não faz. E não faz, não porque você não queira se aproximar ou lhe oferecer colo, mas porque talvez, você ainda não entenda o porque ela precise tanto disso.


E a sua falta de entendimento é aquilo que mais alimenta tudo o que a tira o sono, que a enche os olhos d'agua, que aumenta o vazio e a insegurança. A sua falta de entendimento é tudo que ela mais se queixa nas entrelinhas.

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