Sábado, 11 de Julho de 2009

Cap. I

- É o momento da sua decisão, Lia.

Ela o olhava fixamente e entendia o que ele dizia. Ela já não fazia mais aquela cara de quem não sabia do que se tratava. Ela pensava. Olhava fixamente para ele, entendia, sem caras e pensava. Sabia que precisava tomar uma decisão.



Bom, comecemos do princípio. Quando conheci Lia ela era apenas uma criança. Tinha uns 8 anos. Não, ela tinha 7. Sete e pouco. Lembro do seu aniversário de oito anos. O primeiro aniversário de tantos que parabenizei Lia. Uma semana antes de fazer oito anos, Lia e eu já éramos um pouco próximas. Não por Lia, desde aquela época ela já tinha essa coisa de não se aproximar. Eu é quem já me sentia próxima, sem saber que a proximidade verdadeira se daria depois de um bom tempo. Entenda: depois de um bom e longo tempo.


Retomando... quando conheci Lia ela tinha sete anos e poucos meses. Eu tinha cinco. Cinco anos recém comemorados. Quando fiz cinco anos não ganhei tantos presentes. Não se davam tantos presentes como hoje. Quando fiz cinco anos ganhei um caderno. Um caderno de capa vermelha cor de sangue. Ele tinha as primeiras páginas usadas. Números. Passei um longo período acreditando que aqueles números não tinham significado, passei um longo período acreditando que era apenas alguma marcação errada que fizera o belo caderno vermelho ser descartado e transformado em presente para mim. Mais tarde, dez anos mais tarde, eu saberia o que significavam.


Tudo tem algum significado. Aprendi isso com o tempo. Existem muitas coisas importantes na vida, e duas delas são os significados e o tempo.


Então eu conheci Lia. Papai, mamãe, eu e o bebê paramos em frente a uma porta bem grande de madeira. Não sei nomes de madeira, mas sei que ela cheirava a madeira nova. Papai chamou por Shelmon. Achei aquele nome engraçado: Shelmon. Papai continuava a chamar. Então um barulho. Chinelos talvez, eu nunca soube. Tio Shelmon era tão alto e tão sorridente que não me lembrei de olhar para seus pés. Isso, tio Shelmon é o pai de Lia. E do Pedro também. Tio Shelmon abriu a porta sorrindo, abraçou papai e mamãe, mexeu com minhas bochechas, fez barulhos engraçados para o bebê e nos convidou para entrar. A casa do tio Shelmon e tia Judith tinha cheiro de biscoitos. Judith era esposa do tio Shelmon e era mãe da Lia e do Pedro. Ela não gostava que ninguém a chamasse de tia, mas não era rude. Dizia isso com graça, principalmente para as crianças. "Titia não, anjo doce. Isso me dá mais idade do que tenho" e nos lançava a mão algum doce. Isso é outra coisa que só entendi mais tarde: como Judith sempre tinha doces a mão?


A sala da casa do tio Shelmon era grande mas não se impressione, tudo é relativamente grande para uma criança de cinco anos. E Lia estava lá. Sentada bem no centro, sob um tapete indiano, brincando com a sua boneca. E ela tinha uma fita no cabelo. Lembro-me disso porque eu tinha uma fita igual. Acho que mamãe e Judith já tinham feito compras juntas antes que eu conhecesse Lia. Papai sentou-se a mesa com mamãe, tio Shelmon e Judith, que tinha pegado o bebê no colo assim que me deu um pirulito, por não tê-la chamado de tia. A princípio eu não a tinha chamado. Nem de tia, nem de nada, mas mesmo assim ela me alertou. Acho que não entendi muito bem naquele dia. Isso não é coisa que se entende assim, rápido, quando se tem cinco anos. Ganhei o pirulito: lucro!


Lia nem olhou para mim. Quero dizer, ela olhou com o cantinho do olho e eu retribui com um sorriso. Ela não respondeu, continuou brincando com sua boneca. Não liguei, fui lá sentar ao lado dela. Já disse, Lia não era de se aproximar, enquanto eu...Bom, sobre mim, vocês saberão bastante.


Sentei ao lado dela, sorri. Ela fez cara que não entendeu onde eu queria chegar. Lia era assim, fazia caras, falava pouco. Judith gritou da mesa para Lia. "Brinca com ela Lia, mostra sua boneca". O bebê acordou. Chorava. Urrava.

Incomodava, mas eu já estava acostumada. Lia não. Ela é a mais nova. Em casa, quem chorava e urrava era o Julinho, o bebê - Júlio, na verdade - Na casa do tio Shelmon quem chorava era Lia.


E enquanto ela olhava para o Julinho agarrei a boneca do colo de Lia. Então chorava Julinho e ela. Segurei forte a boneca, não soltava. Ela puxava pelas pernas e eu mantinha a firmeza de meus bracinhos de cinco anos na cabeça. Ela chorava. Julinho chorava. Judith pedia para Lia parar. Mamãe já estava com Julinho no colo. Eu segurava firme a cabeça. Certo: corpo para um lado, cabeça nas minhas mãos. Foi assim que conheci Lia. Ela me destestou.


Mais uma divisão: eu em um canto do sofá, Lia noutro.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Segredos

Um dia eu disse tudo. Noutro não disse nada. Não por birra, mas simplesmente porque tudo já havia sido dito. Então agora parece que me calo, quando apenas espero que tudo se forme de novo.

É uma escolha diária. Você quer seguir qual caminho? A melhor opção foi retirar as vendas. Não tem nada melhor do que saber para onde segue. E você nem imagina como é gostoso poder olhar para as cores. Todas as cores da paleta da vida, não apenas aquele fúcsia que a gente tinha mania.

Entendo que tudo isso possa ser abstinência da minha fala. Não da voz, não do som. Daquilo que vinha junto: os segredos.

Não que o tecido que vendava agora amordaça. Uso como um lenço que balança ao soprar dos ventos, presos na ponta dos dedos. Despeço-me.

Não se assusta, tá. É que escolhi que seria assim agora.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Saiba

Sabe, eu já notei que você não sabe expressar direito aquilo que você sente. Então você briga e grita. E eu também sou um pouco assim. É o jeito que aprendemos para ter certeza que as pessoas vão nos notar. Mas isso não é legal, porque chega um momento que as pessoas vão se afastando, porque estão cansadas de notar apenas esse lado. Você tem tanta doçura...Eu sei que você tem! Só que você demonstra a doçura lá fora, com os outros. E isso dá uma pê de uma inveja.


Porque as pessoas de fora podem ter a sua doçura e aqui dentro a gente precisa conviver com gritos todo-o-tempo? Dá inveja mesmo!


Um dia você brigou dizendo que ninguém se importa com você. Não é verdade, você bem sabe. Acho que fazemos de tudo para te agradar - fazemos de tudo... É que a gente cansa de tanta negatividade. Sabe aquilo de que bom-humor contagia? Então, o contrário também é verdadeiro. Então quando a gente menos quer, estamos todos de 'cara amarrada'.


E disso, falta bem pouco para mais uma instalação de caos. Pelos cantos ficamos resmungando uns sobre os outros. As portas começam a bater e doloridamente, parece que fazemos de um tudo, para ficarmos cada vez mais distante.


Tudo isso, porque nenhum de nós aguenta mais tanto exagero. Parece que nada é suficientemente bom para lhe arrancar um sorriso. Talvez por isso nós investimos tanto em fazer palhaçada.


Você não diz o que você quer, e fica contrariada quando a gente não adivinha. Então todos se sentem perdidos, sabe. E eu bem que queria conversar, mas dá um medo de ouvir pela sei-lá-qual-vez que estou usando minha psicologia barata, enquanto na verdade eu só estou dando voz e ouvidos para o meu coração.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O saco

Era uma vez um saco. Um saco de papéis. Papéis dobrados em 2 partes. Escritos por dentro.

Cada papel tinha uma palavra. E essas palavras tinham grandes significados. Nem sempre literal, nem sempre metafórico. A única maneira de saber que palavras eram estas, era tirando uma a uma do saco e abrindo. É possível que todas juntas formassem alguma coisa. Frases, poesias, leis, regras, declarações...

O saco já fora aberto algumas vezes e podíamos ver papéis voando ao horizonte. Como uma chuva de palavras, alguns se deixavam tocar por elas, outros se protegiam. Alguns olhavam de longe, outros levavam para si.

Depois que as palavras saem do saco, elas não tem mais dono algum. E por isso, certa vez, um sábio arrumou uma corda mágica para fechar o saco. O sábio dizia que era apenas uma maneira de cuidar para que o saco não se esvaziasse e voasse com o soprar dos ventos. Dessa maneira, se perdendo sem dono feito seus papéis.

A corda mágica não podia ser percebida a olho nu. E ficava difícil entender porque não voavam mais palavras de lá. Talvez seja possível notar que alguns papéis ainda estejam no ar. E tentar fazer deles um conjunto seria uma obra de arte.

Mas talvez não seja a hora certa de saber que palavras são estas. O saco continua fechado.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Noite oca

Acordou assustada com a eminência da queda. Era um sonho. Thereza riu de si mesma e pôs-se de lado na cama, tentando buscar o restante do sono que ainda lhe cabia na noite. Olhando para a parede branca, desenhava com os olhos seus próximos compromissos. Uma lista infinita.


Cantou para dentro. Ela tinha essa mania de cantarolar "hum-hum-hum's". Seus pensamentos vooam distantes quando ela se entrega ao canto para dentro. E, embora exausta da rotina que a cada dia ela escolhe, Thereza não conseguia aprofundar-se em sono.


Respirava fundo, como quem pede o ar e soltava lentamente, como um suspiro satisfeito. Pensamentos já altos, ela tentava entender os motivos pelos quais ela se esforçava tanto para algumas coisas e nada para outras. Não achava justo chorar por se sentir incompleta, seria injusto. Ela estava num momento de ouro. "Ouro oco!"- pensou Thereza.


Abraçou o travesseiro, encolheu as pernas e como um feto ajeitou-se debaixo das cobertas. Apertou os olhos forçando o sono a chegar e chorou. Suas lágrimas sairam como o suco de uma fruta ao ser espremida. E Thereza sabe que, quando o suco de lágrimas sai, o oco de si é sentido como uma ferida.

"Falta algo. Falta algo e eu não sei onde encontrar. Não sei onde..." - ...e Thereza dormiu.

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