Cap. I
- É o momento da sua decisão, Lia.
Ela o olhava fixamente e entendia o que ele dizia. Ela já não fazia mais aquela cara de quem não sabia do que se tratava. Ela pensava. Olhava fixamente para ele, entendia, sem caras e pensava. Sabia que precisava tomar uma decisão.
Bom, comecemos do princípio. Quando conheci Lia ela era apenas uma criança. Tinha uns 8 anos. Não, ela tinha 7. Sete e pouco. Lembro do seu aniversário de oito anos. O primeiro aniversário de tantos que parabenizei Lia. Uma semana antes de fazer oito anos, Lia e eu já éramos um pouco próximas. Não por Lia, desde aquela época ela já tinha essa coisa de não se aproximar. Eu é quem já me sentia próxima, sem saber que a proximidade verdadeira se daria depois de um bom tempo. Entenda: depois de um bom e longo tempo.
Retomando... quando conheci Lia ela tinha sete anos e poucos meses. Eu tinha cinco. Cinco anos recém comemorados. Quando fiz cinco anos não ganhei tantos presentes. Não se davam tantos presentes como hoje. Quando fiz cinco anos ganhei um caderno. Um caderno de capa vermelha cor de sangue. Ele tinha as primeiras páginas usadas. Números. Passei um longo período acreditando que aqueles números não tinham significado, passei um longo período acreditando que era apenas alguma marcação errada que fizera o belo caderno vermelho ser descartado e transformado em presente para mim. Mais tarde, dez anos mais tarde, eu saberia o que significavam.
Tudo tem algum significado. Aprendi isso com o tempo. Existem muitas coisas importantes na vida, e duas delas são os significados e o tempo.
Então eu conheci Lia. Papai, mamãe, eu e o bebê paramos em frente a uma porta bem grande de madeira. Não sei nomes de madeira, mas sei que ela cheirava a madeira nova. Papai chamou por Shelmon. Achei aquele nome engraçado: Shelmon. Papai continuava a chamar. Então um barulho. Chinelos talvez, eu nunca soube. Tio Shelmon era tão alto e tão sorridente que não me lembrei de olhar para seus pés. Isso, tio Shelmon é o pai de Lia. E do Pedro também. Tio Shelmon abriu a porta sorrindo, abraçou papai e mamãe, mexeu com minhas bochechas, fez barulhos engraçados para o bebê e nos convidou para entrar. A casa do tio Shelmon e tia Judith tinha cheiro de biscoitos. Judith era esposa do tio Shelmon e era mãe da Lia e do Pedro. Ela não gostava que ninguém a chamasse de tia, mas não era rude. Dizia isso com graça, principalmente para as crianças. "Titia não, anjo doce. Isso me dá mais idade do que tenho" e nos lançava a mão algum doce. Isso é outra coisa que só entendi mais tarde: como Judith sempre tinha doces a mão?
A sala da casa do tio Shelmon era grande mas não se impressione, tudo é relativamente grande para uma criança de cinco anos. E Lia estava lá. Sentada bem no centro, sob um tapete indiano, brincando com a sua boneca. E ela tinha uma fita no cabelo. Lembro-me disso porque eu tinha uma fita igual. Acho que mamãe e Judith já tinham feito compras juntas antes que eu conhecesse Lia. Papai sentou-se a mesa com mamãe, tio Shelmon e Judith, que tinha pegado o bebê no colo assim que me deu um pirulito, por não tê-la chamado de tia. A princípio eu não a tinha chamado. Nem de tia, nem de nada, mas mesmo assim ela me alertou. Acho que não entendi muito bem naquele dia. Isso não é coisa que se entende assim, rápido, quando se tem cinco anos. Ganhei o pirulito: lucro!
Lia nem olhou para mim. Quero dizer, ela olhou com o cantinho do olho e eu retribui com um sorriso. Ela não respondeu, continuou brincando com sua boneca. Não liguei, fui lá sentar ao lado dela. Já disse, Lia não era de se aproximar, enquanto eu...Bom, sobre mim, vocês saberão bastante.
Sentei ao lado dela, sorri. Ela fez cara que não entendeu onde eu queria chegar. Lia era assim, fazia caras, falava pouco. Judith gritou da mesa para Lia. "Brinca com ela Lia, mostra sua boneca". O bebê acordou. Chorava. Urrava.
Incomodava, mas eu já estava acostumada. Lia não. Ela é a mais nova. Em casa, quem chorava e urrava era o Julinho, o bebê - Júlio, na verdade - Na casa do tio Shelmon quem chorava era Lia.
E enquanto ela olhava para o Julinho agarrei a boneca do colo de Lia. Então chorava Julinho e ela. Segurei forte a boneca, não soltava. Ela puxava pelas pernas e eu mantinha a firmeza de meus bracinhos de cinco anos na cabeça. Ela chorava. Julinho chorava. Judith pedia para Lia parar. Mamãe já estava com Julinho no colo. Eu segurava firme a cabeça. Certo: corpo para um lado, cabeça nas minhas mãos. Foi assim que conheci Lia. Ela me destestou.
Mais uma divisão: eu em um canto do sofá, Lia noutro.

